Amor e sexo no Antigo Egito

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Fragmento de cerâmica com uma cena de sexo. 19º ou 20º Dinastia. Século 13-11 a.C.
Museu Britânico. N° EA50714

Tradução feita a partir de artigo publicado no site Ancient.eu. O texto original pode ser conferido aqui. Ele foi escrito por Joshua H. Mark, um professor de História de Nova York,  e publicado em 26 de setembro de 2016. O texto apenas foi traduzido a partir do inglês, nenhuma alteração foi feita em seu conteúdo. A bibliografia utilizada pelo autor foi adicionada ao final do artigo. Diversas fotos foram adicionadas por mim ao longo do texto, visando torná-lo mais ilustrativo. Também coloquei alguns subtítulos no artigo para facilitar a leitura.

Embora os casamentos no Egito antigo tenham sido arranjados visando a estabilidade e o progresso pessoal, há amplas evidências de que o amor romântico era tão importante para o povo da época quanto é atualmente. O amor romântico era um tema popular para a poesia, especialmente no período do Novo Reino (1570-1069 a.C), quando aparecem várias obras elogiando as virtudes dos amante ou das esposas.

Parte do longo papiro Chester Beatty. Várias partes dele estão em exposição no Museu Britânico. Esse pedaço tem o número EA10683,4

O papiro Chester Beatty, datado de cerca de 1200 a.C, está entre estes. Nesse texto o orador fala sobre sua "irmã", mas ela não teria sido uma verdadeira parente de sangue. As mulheres eram comumente chamadas de irmã, mulheres mais velhas como mãe, homens da mesma idade como irmãos e homens mais velhos como pais. O orador na passagem do papiro Chester Beatty não apenas elogia sua amada, mas apresenta o ideal egípcio da beleza feminina da época:

Minha irmã é única - ninguém pode rivalizar com ela, pois ela é a mulher viva mais bonita que existe. Olhe, ela é como Sirius, que marca o começo de um bom ano. Ela irradia perfeição e brilha com saúde. O olhar dela é lindo. Seus lábios falam docemente e nem uma palavra a mais. Pescoço longo e seios leitosos ela tem, seu cabelo da cor de lápis puro. O ouro não é nada comparado a seus braços, e seus dedos são como flores de lótus. Suas nádegas estão cheias, mas sua cintura é estreita. Quanto às coxas - elas só aumentam a beleza dela (LEWIS, 2003, p.203, tradução nossa).

As mulheres no antigo Egito receberam status quase igual ao dos homens, de acordo com um conto antigo que, após o alvorecer da criação, quando Osíris e Ísis reinavam no mundo, Ísis igualou os sexos em poder. Ainda assim, os machos eram considerados o sexo dominante e os escribas predominantemente masculinos escreviam a literatura que influenciava a forma como as mulheres eram vistas.

Na passagem acima, a mulher tem "seios leitosos" (também traduzida como "branca de peito") não porque ela era caucasiana, mas porque sua pele era mais clara do que alguém que tinha que trabalhar nos campos durante todo o dia. As mulheres eram tradicionalmente responsáveis pela casa, e as mulheres da classe alta faziam questão de ficar longe do sol, porque a pele mais escura era uma característica dos camponeses de classe baixa que trabalhavam ao ar livre. Esses membros da classe baixa da sociedade experimentaram os mesmos sentimentos de devoção e amor que os mais elevados na escala social, e muitos antigos egípcios experimentaram o amor, o sexo e o casamento da mesma maneira que um indivíduo moderno.

Amor no Antigo Egito

O rei do Egito mais famoso nos dias atuais é melhor conhecido não por suas realizações, mas devido ao fato de sua tumba intacta ter sido descoberta no ano 1922. O faraó Tutancâmon (1336-1327 a.C), embora jovem, quando subiu ao trono, fez o que pôde para restaurar a estabilidade e as práticas religiosas do Egito depois do reinado de seu pai Akhenaton (1353-1336 a.C). Ele fez isso na companhia de sua jovem esposa e meia-irmã Anksenamun, e as imagens dos dois juntos estão entre as representações mais interessantes do amor romântico no Egito antigo.

Ankhsenamun é sempre retratado com o marido, mas isso não é incomum, pois tais imagens eram comuns. O que torna essas pessoas tão interessantes é como o artista enfatiza sua devoção mútua pela proximidade, os gestos com as mãos e as expressões faciais. O egiptólogo Zahi Hawass observa:

A julgar pelo seu retrato na arte que enche o túmulo do rei de ouro, este foi certamente o caso [que eles se amavam]. Podemos sentir o amor entre eles quando vemos a rainha em pé na frente de seu marido lhe dando flores e acompanhando-o enquanto ele estava caçando (obra não identificada pelo autor, p. 51, tradução nossa).

Tutancâmon morreu com cerca de 18 anos e Ankhsenamun desapareceu do registro histórico pouco depois. Mesmo que as representações dos dois tenham sido idealizadas, como a maioria das artes egípcias o eram, elas ainda transmitem um nível profundo de devoção que também se encontra, em diferentes graus, em outras pinturas e inscrições em toda a história do Egito.

Em uma inscrição de um caixão da 21ª Dinastia, um marido fala sobre sua esposa: "Ai, você foi tirada de mim, aquela com o rosto bonito; não havia ninguém como ela e não encontrei nada de mal em você". O marido nesta inscrição se refere a si mesmo como "seu irmão e companheiro" e em muitas outras inscrições semelhantes, homens e mulheres são vistos como parceiros iguais e amigos em um relacionamento. Embora o homem fosse o chefe da família, e se esperasse que fosse obedecido, as mulheres eram respeitadas como cooperadoras de seus maridos, não subordinadas a eles. A egiptóloga Erika Feucht escreve:

Nas decorações do túmulo do marido, a esposa é retratada como igual, participando da vida do marido na Terra e também na outra vida. Não só ela não teve que esconder seu corpo durante nenhum período da história egípcia, mas seus encantos eram até acentuados em pinturas murais e relevos (citado em Nardo, 2004, p. 29, tradução nossa).

A sexualidade no antigo Egito era considerada apenas mais um aspecto da vida na Terra. Não havia tabus sobre sexo e nenhum estigma ligado a qualquer aspecto, exceto a infidelidade, e, entre as classes mais baixas, o incesto. Em ambos os casos, o estigma era muito mais sério para uma mulher do que para um homem porque a linhagem era passada pela mulher. O historiador Jon E. Lewis observa:

Embora os antigos egípcios tivessem uma atitude relaxada em relação ao sexo consentido entre adultos solteiros (não havia nenhum estigma contra crianças ilegítimas), quando uma mulher se casava, se esperava que ela fosse fiel ao marido. Assim, ele podia ter certeza de que os filhos de sua união - seus herdeiros e os herdeiros de sua propriedade - eram dele. Não havia sanção oficial contra uma mulher envolvida em relações extraconjugais. As punições privadas eram o divórcio, espancamentos e às vezes a morte (LEWIS, 2003, p.204, tradução nossa).

Embora isso seja verdade, há registros de funcionários do governo intervindo em casos e ordenando que a mulher fosse morta por adultério, quando o marido levou o caso à atenção das autoridades. Em um caso, a mulher foi amarrada a uma estaca fora de sua casa, porque havia sido considerada contaminada e queimada até a morte.

Os antigos egípcios e o Sexo

Histórias e advertências sobre mulheres infiéis aparecem com frequência na literatura egípcia antiga. Uma dos mais populares é o Conto dos Dois Irmãos (também conhecido como O Destino de uma Esposa Infiel), que conta a história de Anpu e Bata e da esposa de Anpu.

Anpu, o irmão mais velho, morava com sua esposa e com Bata, seu irmão mais novo. Um dia, quando Bata chegou dos campos para pegar mais sementes para semear, a esposa de seu irmão tentou seduzi-lo. Bata se recusou, dizendo que não contaria a ninguém o que havia acontecido, e retornou para os campos junto ao seu irmão. Quando Anpu chegou em casa mais tarde, ele encontrou sua esposa "deitada lá e parecia que ela havia sofrido violência de um malfeitor". Ela afirmou que Bata tentou estuprá-la e isso virou Anpu contra seu irmão.  A história, de cerca de 1200 a.C, é uma possível inspiração para o último relato bíblico do livro do Gênesis 39:7, que fala de José e da esposa de Potifar.

A história da mulher infiel era um tema tão popular devido ao potencial problema que a infidelidade poderia causar. Na história de Anpu e Bata, o relacionamento deles é destruído e a esposa é morta, mas, antes de morrer, ela continua causando problemas na vida dos irmãos e, mais tarde, na comunidade em geral. O foco dos egípcios na estabilidade e harmonia social teria tornado esse assunto de interesse especial para o público.

Uma das histórias mais populares sobre os deuses era a de Osíris e Ísis e o assassinato de Osíris pelo seu irmão Set. Na versão mais amplamente copiada dessa história, Set decide assassinar Osíris depois de Néftis (esposa de Set), se disfarçar de Ísis para seduzir Osíris. O caos que se segue ao assassinato de Osíris, no contexto da infidelidade, teria causado uma forte impressão no público egípcio. Oséris era visto como inocente na história, já que ele acreditava que estava tendo relações com sua esposa. Como nos outros contos, a culpa é colocada sobre a "outra mulher" ou a "mulher estranha", a deusa Néftis.

Além desses contos incentivando a fidelidade, não se escrevia muito sobre sexo no antigo Egito. Há pouca informação sobre posições e práticas sexuais, o que é geralmente interpretado pelos acadêmicos como significando que os egípcios davam pouca importância ao assunto. Não há nenhuma prescrição contra a homossexualidade e acredita-se que o longevo faraó Pepi II (cerca 2278-2184 a.C) fosse homossexual. As mulheres solteiras eram livres para fazer sexo com quem quer que elas escolhessem e o Papiro Ebers Medical, escrito por volta de 1542 a.C, fornece receitas para contraceptivos. Nesse pergaminho podemos ler:

Prescrição para fazer uma mulher deixar de engravidar por um, dois ou três anos: moa juntos de forma bem fina uma medida de acácia com um pouco de mel. Umedeça a "lã das sementes" com a mistura e introduza na vagina (LEWIS, 2003, p.112, tradução nossa).

Abortos também estavam disponíveis e não havia mais estigma associado a eles do que ao sexo antes do casamento. De fato, não há palavra para "virgem" no antigo egípcio; sugerindo que o grau de experiência sexual - ou a falta de algum - não era considerado uma questão de importância.

A prostituição também não era considerada uma preocupação e, como observa o egiptólogo Steven Snape, "a evidência da prostituição no antigo Egito é bastante reduzida, especialmente antes do período tardio" (116). Nenhum bordel foi identificado no Egito e a prostituição não é mencionada em nenhuma obra escrita ou decisão legal.

O famoso Papiro Turim 55001, que descreve vários encontros eróticos, continua a gerar discussões sobre se está descrevendo relações sexuais entre uma prostituta e um cliente ou se é uma farsa. Muito mais sério do que uma prostituta ou uma mulher carente ou excelente em proezas sexuais, era alguém que poderia tentar um homem a largar a sua esposa e sua família. O Conselho do Escriba Ani adverte:

Cuidado com a mulher que é uma estranha, que não é conhecida em sua cidade. Não olhe para ela enquanto ela passa e não tenha relações sexuais com ela. Uma mulher que está longe de seu marido é uma água profunda cujo curso é desconhecido (LEWIS, 2003, p.184, tradução nossa).

Como os egípcios valorizavam a harmonia social, faz sentido que eles colocassem ênfase especial em histórias que encorajassem a tranquilidade doméstica. Curiosamente, não há histórias semelhantes em que os homens são culpados.

A monogamia foi enfatizada como um valor mesmo entre as histórias dos deuses e os deuses masculinos geralmente tinham apenas uma esposa ou consorte feminina, mas o rei podia ter tantas esposas quanto ele pudesse sustentar, assim como qualquer homem real de meios, e isso provavelmente influenciou como a infidelidade masculina foi percebida. Ainda assim, o ideal da antiga relação egípcia era um casal que permanecesse fiel um ao outro e produzisse crianças.

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Fontes bibiliográficas:

Ancient Egypt: Man and Woman
Ancient Egyptian Sexuality
Bunson, M. The Encyclopedia of Ancient Egypt. Gramercy Books, 1991.
Lewis, J. E. The Mammoth Book of Eyewitness Ancient Egypt. Running Press, 2003.
Nardo, D. Living in Ancient Egypt. Thomson/Gale, 2004.
Snape, S. The Complete Cities of Ancient Egypt. Thames & Hudson, 2014.
Van De Mieroop, M. A History of Ancient Egypt. Wiley-Blackwell, 2010.
Watterson, B. The Egyptians. Wiley-Blackwell, 1997.
British Museum. Ostracon with sex-scene. Acesso em 18 nov. 2018.

Artigo publicado em 18/11/2018.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Postado por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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