Os trirremes gregos - Construção e tripulação

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Ilustração moderna mostrando o trirreme grego em batalha. Autor desconhecido.

Trirremes eram os barcos de guerra usados pelos gregos no século 5 e 4 a.C. Foi utilizando os trirremes que os gregos conseguiram vencer os persas na batalha naval de Salamina (480 a.C.), uma das mais importantes da História. E foi graças a sua utilização que, nos anos seguintes, os atenienses conseguiram criar um império marítimo que sustentou a sua Era de Ouro, um dos períodos de maior desenvolvimento cultural da antiguidade.

A origem desses barcos e o responsável por seu design são desconhecidos, mas há evidências que comprovam que os fenícios já utilizavam birremes na mesma época. Então todo esse conceito, do uso de filas de vários remadores, talvez seja uma invenção fenícia.

As informações que possuímos vem de descrições de autores antigos, como Heródoto, Tucídides, Xenofonte e até de dramaturgos como Ésquilo e Aristófanes, que citaram características desses barcos em suas peças de teatro. Além disso, alguns inventários navais do século 4 a.C. também sobreviveram.

Os trirremes chamam a atenção por diversas características peculiares: eram barcos extremamente leves movidos a força de remos, com 170 remadores distribuídos em três filas de cada lado (por isso o nome TRI-Reme), cada um dos remadores sendo responsável por um remo. Sua principal arma ofensiva era um aríete de bronze que ficava na proa.

Fields resume as características do trirreme:

O trirreme ateniense era um artefato pré-industrial levado ao limite do que era tecnicamente possível na época. Ele era um barco frágil, essencialmente pensado para ser altamente manobrável e capaz de ser dirigido por remadores à alta velocidade por curtos períodos em batalha. (FIELDS, p.6)

Na década de 1980 uma reconstrução de um trirreme grego foi levada a cabo pelo governo da Grécia. O barco foi desenhado por John Coates, um ex-arquiteto naval do Ministério da defesa, levando em consideração evidências reunidas pelo pesquisador e professor John Morrison, da Universidade de Cambridge.

John Coates com um modelo de trirreme. Via The Guardian

Traremos mais informações sobre o Olympias em outro artigo, específico sobre esse tema.

Design e construção

Como nenhum desses barcos sobreviveu, os estudiosos são obrigados a fazer suposições a partir das informações existentes. Não sabemos exatamente qual era o tamanho de um trirreme, mas escavações nos antigos galpões do Pireu (o porto de Atenas na antiguidade), confirmam que o tamanho máximo desses barcos não poderia ter superado os 40 metros de comprimento, com 6 metros de largura.

Uma reconstrução da aparência original dos galpões do Pireu, em Atenas. Ilustração de Sam Manning.

Os trirremes eram barcos extremamente leves, uma característica essencial para que eles atingissem boas velocidades e fossem capazes de causar estragos em barcos inimigos. 

Tendo esse objetivo em mente os gregos utilizavam madeiras leves como pinho, abeto e cedro. E partes internas podiam ser feitas de larício, freixo ou olmo. Essas madeiras eram importadas principalmente da Macedônia e da Trácia. Tratados com reis macedônios garantiam o direito de importar madeira de qualidade ou mandar os construtores até lá, para construir os barcos no local, economizando o custo do transporte por mar. Também há registros de busca por madeira na Itália.

Os barcos do Mediterrâneo oriental (incluindo o trirreme) eram construídos com cascos lisos, em oposição a muitos barcos do norte da Europa que tinham o casco trincado.

Um resultado do uso de madeiras leves para o casco era uma tendência dos trirremes de inchar com a água. Isso diminuía a sua velocidade, então os barcos costumavam ser retirados da água sempre que não estivessem sendo usados, para que o casco pudesse secar. Segundo Tucídides, a incapacidade dos atenienses de secar o casco dos trirremes na campanha de Siracusa, fez os seus barcos ficarem mais lentos, perdendo parte de sua força ofensiva.

Os remos do barco também eram feitos de madeira, normalmente com uma única tora de abeto, para garantir sua leveza e força. Os remos passavam por uma inspeção após a fabricação e os que ficavam abaixo do padrão eram rejeitados. Um trirreme com 170 remadores, carregava 170 remos mais 13 de reserva, para o caso de quebra. Essas peças tinham 4.4 ou 4.6 metros, dependendo da posição do remador.

O casco do barco era protegido da água com piche e isso o tornava negro, e antes de cada expedição o barco recebia uma nova camada desse material.

Os trirremes possuíam nomes femininos em homenagens a deusas, ideais ou animais. E cada barco tinha uma imagem símbolo e talvez até o nome estivesse escrito na proa, assim a identificação em batalha se tornava mais fácil para a equipe e os seus aliados.

A proa do barco normalmente era decorada com peças de mármore pintadas para parecerem olhos humanos. Essas peças eram ocionalmente perdidas em batalhas e algumas delas foram descobertas por arqueólogos.

Olho de mármore de um trirreme grego. Ele originalmente estava pintado e alguns vestígios dessa tinta ainda podem ser vistos. Museu Arqueológico de Atenas. Via Ancient.eu

Tripulação

A tripulação de um trirreme era composta de 200 homens, dos quais 170 eram remadores e 15 eram marinheiros especializados. O barco ainda levava 10 soldados hoplitas e 4 arqueiros. No comando de toda essa equipe estava o Trierarca, o capitão do barco.

Os remadores

Os remadores estavam dispostos em três níveis em cada lado do barco. 62 no primeiro nível, 54 no segundo e 54 no terceiro. Os remadores no nível superior eram os líderes de sua 'tríade' e responsáveis por sincronizar os remos. Eles ganham uma bonificação extra além do salário diário. Embora eles estivessem em uma área mais ventilada, ao lado de uma abertura lateral, sua posição também era mais vulnerável a flechas e mísseis inimigos.

Deve ser dito que o thalamioi [remadores inferiores] tinham a posição mais desagradável e perigosa. Se o navio fosse atingido, eles provavelmente se afogariam ou seriam capturados por um grupo de embarque inimigo. (FIELDS, p.14)

Os remadores da parte mais baixa estavam sujeitos a uma situação bastante insalubre. Eles estavam apenas 45 cm acima do nível da água e ficavam abaixo dos outros dois remadores.

Recorte de um trirreme grego mostrando a posição dos remadores. Ilustração moderna de Peter Bull.

No nível inferior dos trirremes, o buraco por onde o remo saia do barco para a água era protegido por uma capa de couro, para tentar evitar a entrada de água no barco. Mesmo assim é provável que esses remadores ficassem molhados durante o trabalho, não só pela água do mar, mas pelo suor dos remadores acima. O ambiente na parte inferior desses barcos deve ter sido muito desagradável, especialmente pela falta de ventilação.

A posição dos remadores nos trirremes.

Nenhum dos remadores estava armado, então caso ocorresse uma abordagem eles estavam indefesos. Os bancos dos remadores eram fixos, eles apenas moviam a parte superior do corpo, e cada remador costumava levar para o barco uma almofada feita com pele de ovelha, para tornar o banco um pouco mais confortável.

Os remadores eram membros da fatia mais pobre das cidades e eram altamente treinados. Os remadores atenienses praticavam constantemente para que, quando a necessidade surgisse, eles estivessem prontos.

Alguns autores antigos falam sobre a existência de um flaustista a bordo, responsável por definir o ritmo das remadas através do som, enquanto os remadores davam gritos a cada movimento para ajudar nessa sincronização. O uso de tambores para marcar o ritmo era uma prática desconhecida na Grécia Antiga.

Soldados e arqueiros

Os barcos atenienses do século 5 carregavam apenas 10 hoplitas, a princial razão para um número tão pequeno era a questão do peso e da estabilidade. Os barcos eram muito leves e uma grande tripulação se movendo sobre o deque poderia desestabilizá-lo fazendo ele virar.

Hoplita em trirreme grego. Ilustração moderna de Peter Bull.

Logo, os hoplitas que ficavam sobre o barco costumavam ficar sentados em uma posição mais central do trirreme, para não interferir na sua estabilidade.

Peso, particularmente sobre o deque, impedia o trirreme de fazer o que ele fazia melhor, ou seja, conduzir suas manobras táticas na quais velocidade e agilidade eram essenciais. (FIELDS, p.16)

Essas considerações valiam para batalhas em alto mar, onde o trirreme realmente poderia se aproveitar de seus qualidades únicas. Em batalhas em espaços apertados, por exemplo, quando os atenienses lutaram dentro do porto de Siracusa, um número muito maior de soldados foi usado sobre o barco. Nesse caso o espaço limitado impedia que os barcos se utilizassem de sua principal arma: o ataque rapído com o uso do aríete.

O ataque de um trirreme. Ilustração moderna, autor desconhecido.

Os quatro arqueiros que faziam parte da tripulação tinham duas funções: fazer a proteção do capitão (trierarca) e do timoneiro do barco, que estava muito concentrado em guiar o barco para se preocupar com sua própria defesa. Em caso de invasão de uma tripulação inimiga, eles também podiam fornecer cobertura durante um ataque hoplita. Esses arqueiros costumavam ser mercenários, especialmente citas, que possuíam uma tradição com esse tipo de armamento.

Equipe técnica

Os 10 marinheiros que compunham a tripulação do barco eram profissionais altamente especializados, normalmente mercenários contratados. Além deles, o barco também contava com um capitão (trierarca), um timoneiro, um oficial de proa, um construtor naval, um contramestre e um flautista.

Desses o mais importante era o timoneiro, que era o responsável pela navegação sobre remos e sobre velas. Era ele que tomava decisões durante a batalha, o que poderia levar o barco a derrota ou a vitória. Seu principal assistente era o oficial de proa, responsável por controlar o trabalho dos remadores.

O timoneiro controlando o barco, protegido por quatro arqueiros citas. Atrás dele está o trierarca. Ilustração moderna de Peter Bull.

No próximo artigo falaremos sobre as aplicações militares dos trirremes e as suas limitações. Fique ligado!

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Fontes bibiliográficas:

FIELDS, Nic. Ancient Greek Warship 500-322 BC. Osprey: Oxford, 2007.

Artigo publicado em 11/08/2019.



Foto de membro da equipe do site: Moacir Führ

Escrito por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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