A Cidade Antiga

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Capa do livro A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges
Autor: Fustel de Coulanges
Título original: La Cité Antique
Páginas: 511
Editora: Ediouro
Ano da edição: 2004
Idioma: Português
Skoob: Acessar

Sinopse:

Em 'A cidade antiga', Fustel de Coulanges procura reconstituir as origens da vida em sociedade dos antigos gregos e romanos. Através de uma pesquisa sistemática, o autor busca os primórdios do que se convencionou chamar de cidade nos tempos modernos, o que teria motivado as pessoas a se unirem em torno de uma mesma sociedade, com princípios e objetivos comuns. O estudo da Índia e de outras sociedades antigas, como a Chinesa e os índios norte-americanos, revelam que o primeiro vínculo social existente foi o religioso, o culto aos mortos. Do culto aos mortos aos antepassados, viriam os deuses da natureza e, mais tarde, o Deus único do cristianismo, extendendo cada vez mais os vínculos sociais. O fim do vínculo religioso como necessidade da formação de uma sociedade gerou as revoluções e as lutas de classes. Segundo o autor, o novo alicerce para as pessoas se unirem passou a ser o corpo de leis e instituições, com os direitos e garantias que proporcionam aos cidadãos. Como é, até hoje, na maioria das sociedades.


Imagens (17) / Anotações de leitura

Análise do livro

COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

A Cidade Antiga é um clássico da História Antiga Clássica. Escrito originalmente em 1864 pelo francês Fustel de Coulanges, a obra apresenta uma grande teoria sobre a formação das sociedades greco-romanas, que demonstra como o desenvolvimento da propriedade, do direito e da família estiveram intrinsecamente ligados as crenças antigas dessas sociedades.

Para minha grande vergonha, devo confessar que nunca havia lido essa obra. Mas posso dizer sem dúvidas que a leitura desse livro foi tão prazeroza e esclarecedora, que ele já se tornou um dos meus livros favoritos de todos os tempos.

É com certeza uma leitura obrigatória para todos que querem entender a sociedade e a cultura da civilização greco-romana.

Há muitos conceitos antigos que são muito difíceis para a mente moderna compreender. Qualquer pessoa que se coloca a estudar a Grécia e a Roma Antiga encontra dificuldades em entender completamente o conflito entre patrícios e plebes, e entre o povo e as oligarquias. Além de termos como gens, fátrias, tribos, cúrias, demos. Questões como o Sinecismo, o status dos clientes, as mudanças trazidas pelo Código de Sólon e pela Lei das Doze Tábuas, o culto aos antepassados e ao fogo sagrado, a importância da pátria e a real natureza da relação dos homens com suas cidades.

Aí entra a obra de Fustel de Coulanges. O autor trabalha cada uma dessas questões começando muito antes do surgimento das cidades, e mostrando como, gradativamente, as crenças antigas foram se desenvolvendo e se transformando para se adequar as novas condições sociais que se apresentavam.

Nos primeiros capítulos da obra, o autor faz constantes comparações entre Grécia, Roma e Índia já que, segundo ele, há milhares de anos esses povos viviam juntos e compartilhavam uma cultura. Quando eles se separaram e foram cada um para seu lado, as mesmas crenças se mantiveram, e por isso ficam claras as similares quando essas civilizações são analisadas nos seus primórdios.

O conteúdo da obra

A obra é dividida em cinco livros:

Livro 1 - Apresenta uma descrição das crenças antigas: as crenças sobre a alma e sobre a morte, o culto aos mortos e ao fogo sagrado. E mostra o caráter da religião que era doméstica. Cada família tinha a sua, não havia uma religião universal ou regional.

Livro 2 - O autor descreve o funcionamento da família na antiguidade. O poder do pai, o porque da inexistência dos testamentos nos tempos antigos e a ligação que a propriedade tinha com o culto familiar. Também fala sobre a gens e a instituição dos Clientes.

Livro 3 - A formação das cidades é o tema desse livro. Como as famílias se uniram em fátrias, cúrias e tribos, e como gradativamente as cidades foram se formando com novas instituições religiosas que adaptavam os cultos domésticos a uma esfera maior. O autor também disseca o funcionamento da lei e a origem do poder de reis e magistrados. As relações entre as cidades e a função de colônias.

Livro 4 - Aqui o autor fala sobre as revoluções sociais. Qual foi o plano de fundo das grandes mudanças políticas que foram tirando o poder das mãos da aristocracia e abrindo espaço para o povo (a plebe) ganhar cada vez mais poder político e se tornar cidadã.

Livro 5 - Como o regime municipal foi perdendo força e dando lugar ao Império Romano, e como o cristianismo e sua ascensão foram mais um sintoma dessas mudanças. O autor mostra como o Império Romano se utilizou de sua religião pagã para se expandir, algo que as outras cidades não foram capazes de fazer.

Esse resumo que acabei de fazer de cada um dos capítulos é extremamente superficial e não faz juz as brilhantes explicações de Fustel de Coulanges. Os argumentos do autor são muito completos e extremamente convincentes. Ele também adota um estilo de escrita muito didático, e repete muitas ideias diversas vezes para garantir que o leitor não se esqueça dos conceitos mais importantes, que são essenciais para a compreensão da teoria apresentada.

Para ilustrar suas observações o autor normalmente usa exemplos da História de Atenas, Esparta e Roma.

A obra de Fustel foi totalmente baseada no estudo das fontes antigas, o autor praticamente não usou trabalhos de historiadores modernos. Fustel aponta ao longo do livro que um dos problemas para a compreensão da História Antiga é a incapacidade que os estudiosos tem de perceber o quão diferentes essas civilizações eram das atuais. Segundo o autor, para uma verdadeira compreensão desse período é necessário procurar pelas diferenças com relação ao nosso mundo, e não pelas similaridades.

Alguns dos autores antigos usados por Fustel de Coulanges foram Aristóteles, Platão, Demóstenes, Plutarco, Aristófanes, Eurípides, Sófocles, Cícero, Tito Lívio, Tucídides, Heródoto, Isócrates, etc.

Os problemas do livro

Na introdução dessa edição do livro, o historiador François Hartog faz algumas críticas à pesquisa de Fustel de Coulanges, primeiro argumentando que ele não é muito eficiente na demonstração de suas teorias e que seus argumentos se sustentam mais na "sedução da expressão do que na precisão das demonstrações", e depois criticando a forma como Fustel trabalhou com as fontes primárias, assinalando:

"(...) o curioso uso que Fustel faz dos textos antigos. Desde que abordem o mesmo assunto, autores são reunidos mesmo que o gênero e a cronologia os separem, exclusivamente em razão do princípio de que é preciso apresentar um ou melhor vários textos; Cícero pode estar perto de Homero e Porfírio. Fustel retém uma palavra, um trecho de frase, um verso, porém negligencia totalmente o contexto. Enfim, particularmente os trágicos são lidos em geral ao pé da letra, como se se tratasse de descrições realistas, de práticas efetivas, fúnebres ou outras; entre Ésquilo e um lexicógrafo, nenhuma diferença. (p.23)

Alguns outros historiadores, como Moses Finley, também apresentaram críticas a Fustel de Coulanges pelo fato de sua obra atribuir todas as mudanças políticas e sociais à aspectos religiosos dessas sociedades, ignorando as forças sociais e econômicas.

São críticas válidas, mas é importante destacar que, embora o autor possa ter exagerado na importância que o aspecto religioso desempenhou nas mudanças sociais, a descrição que ele faz dessas sociedades antigas é maravilhosamente rica e extremamente informativa. Lendo essa obra eu senti que pela primeira vez conseguia ter uma visão verdadeiramente profunda dessa sociedade.

Em algumas passagens do livro também fica claro um certo desprezo do autor com relação a essas religiões antigas. Fustel era cristão e em vários momentos da obra não consegue esconder a sua visão de que essas civilizações cultuavam deuses falsos e pouco desenvolvidos.

O livro também se destaca pela falta de datas e por não seguir uma ordem cronológica. Esse é um aspecto negativo porque em alguns momentos a obra pode ser um pouco confusa, com o autor pulando de trás para frente no tempo e fazendo comentários sobre crenças antigas e novas práticas sem citar exatamente os momentos de transição. É claro que muitas dessas datas são desconhecidas, mas há passagens do livro que certamente se beneficiariam com o acréscimo de datas, especialmente quando o autor fala das revoluções em momentos mais recentes, como no período clássico grego e no período republicano romano.

Sobre essa edição

Essa versão da obra é uma tradução de Aurélio Barroso Rebello e Laura Alves, publicada pela Ediouro em 2004. É uma edição muito bonita, com uma fonte excelente para leitura e diversas ilustrações que, embora não contribuam muito para o entendimento do tema central, certamente tornam a leitura mais prazerosa.

Mas a obra apresenta alguns defeitos. O livro não tem tradução dos trechos em grego e latim. Ao longo da obra, o autor cita palavras em grego e elas aparecem em grego, então realmente fica impossível saber qual era o som da palavra em questão (eu não leio grego). Essa é uma característica apenas dessa edição, consultei outras edições (como por exemplo a da Martins Fontes) e percebi que ela apresenta os trechos em grego com o alfabeto latino, permitindo a leitura sem problemas.

Resenha publicada em 16/09/2019.

Fustel de Coulanges

Fustel de Coulanges (1830-1889) ainda jovem foi doutor e professor na Faculdade de Letras de Estrasburgo. Fez notáveis estudos em Atenas, reunidos em volume em 1857. Ao escrever 'A Cidade Antiga', foi levado à Sorbonne, onde ocupou a cadeira de História da Idade Média. Foi também diretor da École Normale Supérieure. Ainda nos deixou as monumentais História das Instituições Políticas da Antiga França (1875-1889) e Investigações sobre Alguns Problemas da História (1885).

Historiador(a)

Foto do membro da equipe: Moacir Führ

Escrita por

Moacir Führ

Moacir tem 32 anos e nasceu em Porto Alegre/RS. É graduado em História pela ULBRA (2008-12) e é o criador e mantenedor do site Apaixonados por História desde 2018.

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